Você conhece a realidade das mulheres trabalhadoras rurais? Já ouviu falar sobre suas formas de trabalho, suas lutas e os conhecimentos que produzem no campo? Este texto é um convite para compreender quem são essas mulheres, como contribuem para a vida nos territórios rurais e por que suas atividades nem sempre recebem o devido reconhecimento.
As expressões mulheres rurais e mulheres do campo não indicam apenas o lugar onde essas mulheres vivem. Elas também representam uma identidade social e política construída por meio da luta por direitos, cidadania e reconhecimento. Em texto de 2022 publicado na Revista Brasileira de Direito Social, com o título: Somos mulheres trabalhadoras rurais: da invisibilização ao reconhecimento de direitos previdenciários e da cidadania, as autoras Thais Gisely Diniz Santos, Katya Isaguirre e Ana Letícia Maciel de Vasconcelos destacam que essas mulheres se organizam para reivindicar o reconhecimento de seu trabalho e de sua participação nos espaços em que vivem.
Refletir sobre a expressão “mulher trabalhadora rural” significa reconhecer atividades que, durante muito tempo, foram invisibilizadas ou consideradas de menor importância. O debate sobre as desigualdades de gênero contribuiu para mostrar que as mulheres desempenham diferentes funções no meio rural. Além das tarefas domésticas e do cuidado com a família, elas trabalham no plantio, na colheita, na criação de animais, no beneficiamento de alimentos, na comercialização da produção e na organização das comunidades.
Apesar dessa participação, muitas mulheres foram vistas apenas como cuidadoras do lar ou como pessoas que “ajudavam” os homens nas atividades agrícolas. Essa interpretação escondia o valor econômico, social e ambiental do trabalho feminino. Quando uma atividade é considerada apenas uma ajuda, ela deixa de ser reconhecida como trabalho, o que pode dificultar o acesso a direitos, renda, políticas públicas e espaços de decisão.
A partir de dados do censo agropecuário de 2017 no Brasil foram registrados 5.056.525 de estabelecimentos agropecuários. Desse total, 18,7% corresponde a mulheres que estão à frente do estabelecimento, ou seja, 946.075 deles são elas que dirigem. Cabe ressaltar que atualmente esses dados podem ser bem maiores do que os encontrados no último censo, tendo em vista um acentuado crescimento da participação feminina. Por outro lado, observa-se também que os dados apresentados não correspondem a todas as mulheres que trabalham com a agropecuária, já que muitas delas não possuem registro formal.
A Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais, com base em dados da CONAB, evidencia que no ano de 2020 cerca de 80% dos participantes do PAA eram mulheres. Nesse sentido, é percebido uma importância das políticas públicas, bem como interesse desse grupo em procurar cada vez mais subsídios que favoreçam seu trabalho produtivo.
Valorizar as mulheres trabalhadoras rurais significa reconhecer seus conhecimentos, fortalecer sua autonomia econômica e ampliar sua participação nas decisões sobre o território. Com isso, investir em políticas públicas voltadas para essas mulheres é, portanto, essencial para promover justiça social, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável no meio rural.
Referências
SANTOS, Thais Giselle Diniz; ISAGUIRRE, Katya; VASCONCELOS, Ana Letícia Maciel de. Somos mulheres trabalhadoras rurais: da invisibilização ao reconhecimento de direitos previdenciários e da cidadania. Revista Brasileira de Direito Social, Belo Horizonte, v. 5, n. 1, p. 65-87, 2022. Disponível em: <https://rbds.ieprev.com.br/rbds/article/view/175>. Acesso em: 26 jul. 2026.
IBGE — INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Agropecuário 2017: resultados definitivos. Rio de Janeiro: IBGE, 2019.
MULHERES AGRICULTORAS TÊM MAIS DE 80% DE PARTICIPAÇÃO NO PAA. CONAFER Brasil, 2020. Disponível em: <https://conafer.org.br/mulheres-agricultoras-tem-mais-de-80-de-participacao-no-paa/>. Acesso em: 25 set. 2026.